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Francisco de Melo Palheta nasceu em 1670 na cidade de Belém, Pará, onde estudou e decidiu seguir a carreira militar. O café foi introduzido no Brasil por Francisco de Melo Palheta, em 1727, que o contrabandeou da Guiana Francesa.
O café foi uma bebida descoberta e utilizada de forma regular pelos árabes a partir do Século VII, incluindo o profeta Maomé, sendo por isto adotada pelo mundo islâmico com exclusividade até o Século XVII - mil anos de café. No Ocidente os cristãos bebiam vinho e cerveja diariamente, pois a água ficava insalubre quando armazenada, pois não havia como preservar a água obtida nos rios. Mas no Século XVII, a Era das Bebidas, o consumo de café migrou para a Europa. O café chegou ao Ocidente pela cidade de Nápoles na Itália, mas como era uma bebida maometana, foi proibida aos cristãos e somente foi liberado após o Papa Clemente Vlll (Hipólito Aldobrandini) provar, aprovar a abençoar o café. Na sua peregrinação pelo mundo e graças ao dinamismo do comércio marítimo holandês da Companhia das Índias Ocidentais, o café foi introduzido no novo mundo, espalhando-se pelas Guianas, Martinica, São Domingos, Porto Rico e Cuba.
O café foi introduzido na Guiana Francesa através do Governador de Caiena que conseguiu, de um francês chamado Morgues um punhado de sementes de café, colhidas dos cafeeiros que os holandeses haviam plantado em Suriname, e as semeou no pomar de sua residência. Em 1727, o Governador do Maranhão e Grão Pará, João da Maia da Gama, encomendou ao Sargento-mor Francisco de Melo Palheta a missão oficial de ir a Guiana Francesa para resolver alguns problemas de fronteiras junto com uma missão secreta: conseguir algumas sementes do fruto que, segundo informações transmitidas ao governador Maia, possuía grande valor comercial. O governador da Guiana, Claude d'Orvilliers, tinha mandado arrancar um padrão com o escudo português plantado na fronteira entre as duas colônias.
A missão de Palheta seria fazer respeitar a divisa, estabelecida pelo Tratado de Utrecht no rio Oiapoque. A segunda tarefa de Palheta era clandestina: deveria obter mudas de café, cultivado nas Guianas desde 1719, e trazê-las para o plantio no Pará. O sertanista cumpre suas duas incumbências. Consegue com que os franceses aceitem a faixa divisória entre os dois países e consegue trazer mudas de café para o Brasil, apesar da proibição formal do governo francês. Os portugueses, desde que iniciaram a conquista da Amazônia, devido a maior presença de índios da nação tucujus na região compreendida entre o rio Jari e a margem esquerda do Amazonas, desde o Paru até a foz, passaram a denominá-la Terra dos Tucujus ou Tucujulândia. A fixação portuguesa nessa região, de fato, começou em 1688, formada pela guarnição da Fortaleza de Santo Antônio, mas após a assinatura do Tratado Provisional com a França, em 4 de março de 1700, foram obrigados a abandoná-la, porque esse acordo determinava a neutralização, proibindo até mesmo que colonos portugueses ou franceses se estabelecessem na região.
O Tratado Provisional foi ratificado em 18 de julho de 1701, ficando pendente a questão de limites. Mas os franceses não o respeitaram e continuaram incursionando pela região. Os portugueses protestaram e anularam os dois acordos, ao mesmo tempo em que apelavam à sua aliada Inglaterra, para que interviesse, visando a uma solução negociada da questão. Na Holanda, sob a mediação da rainha inglesa Anne, em 11 de abril de 1713, ocorreu a assinatura do Tratado de Ultrecht entre Portugal e a França, que estabeleceu o rio Oiapoque como limite entre o Brasil e a Guiana Francesa.
A assinatura do Tratado de Ultrecht, embora correto e justo foi entendido por segmentos da sociedade francesa como condescendente, vindo influenciar os governantes da Guiana Francesa, que não respeitariam esse acordo, determinando incursões na área. O auge dessas investidas ocorreu quando governava aquela Colônia, Claude d'Orvilhers, com corsários franceses aprisionando indígenas para escravizá-los. Eram combatidos, mas sem eficiência. Quando o capitão-general, João da Maia da Gama, em 19 de julho de 1722, assumiu o governo do Estado do Maranhão e Grão-Pará, as investidas francesas começaram a ser combatidas de forma mais intensa. No período de 1723 a 1728, além das rotineiras expedições guarda-costas, que percorriam o litoral, esse governador ordenou quatro grandes expedições militares a região, comandadas pelos capitães João Paes do Amaral, Francisco de Mello Palheta, Diogo Pinto da Gaya e Francisco Xavier Botero, que não chegaram a combater invasores, contudo fizeram como que fossem reduzidas substancialmente as invasões francesas sobre o setentrião pátrio.
Assim foi assegurado aos portugueses o domínio sobre as terras situadas entre os rios Amazonas e Oiapoque, os quais voltaram a se estabelecer na região, em 1738, posicionando em Macapá um destacamento militar. Era governador do Estado do Maranhão e Grão-Pará, João de Abreu C. Branco, que o conservou até o final de seu governo, em agosto de 1747, sem nada fazer pelo seu desenvolvimento por falta de recursos financeiros e interesse da Coroa Portuguesa. Esse governador chegou a insistir na urgência da implantação do povoamento e fortificação da Foz do Amazonas.
Francisco Pedro de Mendonça Gurjão, seu sucessor, renovou essas reivindicações, mas a única providência tomada por D. João com relação à região foi oficialmente denominá-la, em 1748, de Província dos Tucujus ou Tucujulândia, sem alterar sua administração. Tratava-se tão somente de delimitação geográfica, com um objetivo estratégico militar de defesa da área e de controle sobre as nações indígenas que a habitavam, para sua exploração como mão-de-obra e utilização no combate contra invasores estrangeiros.
Ao governador Francisco Xavier de Mendonça Furtado, entretanto, coube a tarefa de programar a colonização da região. Assumiu o governo do Estado do Maranhão e Grão-Pará em 24 de Setembro de 1751, e já em Dezembro organizava uma expedição ao Macapá sob comando do sargento-mor João Batista do Livramento, constituída de soldados e principalmente, de colonos da Ilha dos Açores. Foram recepcionados pelo comandante da guarnição, Manoel Pereira de Abreu e padre Miguel Ângelo de Morais que estavam em conflito, porque o militar negava-se em atender os pedidos e solicitações do sacerdote, inclusive de alimentação.
O povoado rapidamente progredia, mas a insalubridade do local tornava-se um grave problema a ser enfrentado pelos colonos. Em 1752, uma epidemia de cólera grassou em Macapá. A notícia chegou a Belém e em 7 de março desse ano, inesperadamente, Mendonça Furtado chegou na povoação, trazendo o único médico que havia na Capitania e medicamentos, conseguindo controlar a moléstia.
Mendonça Furtado, no início de fevereiro de 1758, novamente foi a Macapá com numerosa comitiva. Estava em missão de demarcação de fronteiras da Colônia com as terras pertencentes à Espanha, na região Amazônica, definida pelo Tratado de Madri, assinado em 1750. Veio para elevar o povoado à categoria de vila. No dia 2 de fevereiro, começou com as providências, criando a Câmara Municipal e empossando os vereadores Domingos Pereira Cardoso, Feliciano de Sousa Betancort, Francisco Espindola de Betancort, Antonio da Cunha Davel, Thomé Francisco de Betancort e Simão Caetano Leivo. No transcurso de uma solenidade, no dia 4 de fevereiro, Mendonça Furtado mudou a categoria administrativa do povoado de Macapá, elevando-o à condição de Vila de São José de Macapá - nascia a capital do futuro Estado do Amapá.
Francisco era um homem diferente dos demais brasileiros da época, todos adeptos da monogamia e fidelidade eterna ao casamento - era um sedutor incorrigível. Sabia que o importante não era conquistar, mas seduzir. Na Guiana teve um caso com a mulher do governador local, a Madame d'Orvilliers a qual, tomada pela paixão, na noite de despedida de Francisco, o presenteou com sementes do precioso arbusto.
Durante o século XVIII, o cultivo do café limitou-se ao nordeste, onde os solos não eram os mais adequados. Nos primeiros tempos o cafeeiro se desenvolvera apenas nas províncias do norte do país, em pequenas plantações. A cafeicultura no Brasil só se desenvolveu no século XIX, quando o produto começou a ser cultivado em direção ao sul, sendo introduzido no Maranhão, atingindo a Bahia em 1770 e a seguir o Rio de Janeiro. Em 1773, o Desembargador João Alberto Castelo Branco trouxe, do Maranhão, para o Rio de Janeiro, algumas sementes de café, que foram plantadas no convento dos barbadinhos. O Vice-rei e o Bispo do Rio de Janeiro fomentaram a ampliação da cultura, havendo este último, inclusive cultivado um viveiro na Fazenda Capão. A seguir o café foi plantado em chácaras na Tijuca, Gávea, Andaraí e Jacarepaguá. Da cidade maravilhosa o café expandiu-se pela Serra do Mar até atingir, em 1825, o Vale do Paraíba, alcançando logo depois São Paulo e Minas Gerais e norte do Paraná.
O próprio Francisco Palheta teve um cafezal no Pará, com mais de mil pés, para o qual pediu ao governo cem casais de escravos. Abaixo apresentamos cópias das cartas que documentam o pioneirismo de Francisco de Melo Palheta em trazer o café para o Brasil e de iniciar seu cultivo em terras brasileiras.
D. João, etc. - Faço saber a vós governador e capitão-general do Maranhão que por parte de Francisco de Melo Palheta se me faz a petição (cuja cópia com esta se vos envia assinada pelo secretário do meu Conselho Ultramarino) em que pede lhe conceda alvará para descer cem casais de escravos do sertãop do rio Negro, ou outro qualquer que se lhe oferecer, como também mandar se dêem ao suplicante cinqüenta índios da aldeia de Caane, Mortigure, Simoumá, Bocus, Caricuru, Mongabeiros, Cametá, Gorjones para fazer os ditos resgates, mande-se-lhe dê tudo o necessário da fazenda dos ditos resgates, que depois pagará da mesma viagem o custo que fizer. Me pareceu ordenar-vos informeis com vosso parecer. El Rei Nosso Senhor o mandou pelo Dr, Manuel Fernandes Vargas e Gonçalo Manuel Galvão de Lacerda, conselheiros do seu Conselho Ultramarino, e se passou por duas vias. João Tavares a fez em Lisboa ocidental a dezesseis de fevereiro de mil setecentos e trinta e quatro. O secretário Manuel Caetano de Lavre a fez escrever.
Sr. - Diz Francisco de Melo Palheta, capitão-tenente da guarda-costa, que ele, suplicante, está atualmente ocupado no serviço de V. M. e somente com quarenta e oito mil réis de soldo; fazendo gastos excessivos e experimentando grandes perdas, como na viagem do descobrimento do rio Madeira, fez de gasto um conto e duzentos mil réis; porque o mandou o governador João da Maia da Gama ao dito descobrimento até às Índias de Espanha, como fez chegar até à cidade de Santa Cruz, e nas grandes cachoeiras teve três alagações em que perdeu tudo quanto levava, e depois foi mandado pelo nosso [mesmo?] governador a correr a costa, e à vila de Caiena, fazendo também grandes gastos, sem que das ditas viagens fizesse negociações algumas; e vendo o suplicante que o governador de Caiena deitava um bando à sua chegada que ninguém desse café aos portugueses, capaz de nascer, se informou o suplicante do valor daquela droga, e vendo o que era fez diligência por trazer algumas sementes com algum dispêndio da sua fazenda, zeloso dos aumentos das reais rendas de V. M., e não só trouxe mil e tantas frutas que entregou aos oficiais do senado [vereadores na câmara municipal] para que o repartissem com os moradores, como também cinco plantas, de que j;a hoje há muito no Estado; e como o suplicante se acha muito falto de servos e tem mil e tantos pés de café e três mil pés de cacau, e não tem quem lhos cultive, e se acha com cinco filhos, pede a V. M. lhe faça mercê conceder por seu alvará cem casais de escravos do sertão do rio Negro, ou outro qualquer, que se lhe oferecer, como também mandar se dêem ao suplicante cinqüenta índios das aldeias de Caabe [por Caeté, hoje Bragança], Mortigure [por Murtigura, hoje Vila do Conde], Simoúma [por Sumaúma, hoje Beja], Bocus [por Bocas, hoje Oeiras], Caricuru [por Maricuru, hoje Melgaço], Mongabeiras [por Mangabeiras, hoje Ponta de Pedra], Camutá Gojons [por Guaianas, depois Lugar de Vilar, hoje extinto] para fazer os ditos resgates; e como o suplicante está alcançado, e não tem com que comprar o necessário para fazer os ditos resgates, mandar se lhe dê tudo o necessário da fazenda dos resgates, para que depois o suplicante inteire, e pague da mesma viagem o custo que fizer. E. R. Mcê.
Iniciava-se o ciclo do café, após o do ouro e da cana, com o café implantando-se solidamente em território brasileiro. No centro - sul, em condições ecológicas altamente favoráveis, o café atingiu o oeste paulista, em 1840, o noroeste de São Paulo, em 1920; a Alta Sorocabana, a Alta Paulista e o Estado do Paraná, entre 1928-1930. O norte do Estado do Rio de Janeiro e o Espírito Santo já cultivam o café desde 1920. O Brasil não era considerado como exportador de café até 1820, embora em 1800 o café tenha sido exportado pela primeira vez, quando apenas 13 sacos foram embarcados no Porto do Rio de Janeiro. Antes da independência, consta que algumas outras partidas de café foram realizadas, tendo como destino Lisboa e sendo cafés principalmente dos Estados do Norte, mas em pequenas quantidades que nem sequer foram anotadas. Com a libertação do país iniciou-se realmente a era do café e, em 1845, o Brasil já colhia 45% da produção mundial, destacando-se como o maior produtor.
O café foi implantado com o mínimo de conhecimento da cultura. A mata era derrubada, queimada e o café semeado, procurando-se apenas implantar a lavoura em terrenos férteis; era o início da ação predatória do meio ambiente virgem. O desconhecimento não tardou em trazer à incipiente cafeicultura grandes impactos e, já em 1870, uma grande geada atingia drasticamente as magníficas plantações das férteis regiões do Oeste Paulista, seguindo-se intensiva seca e incêndios que se propagaram de Atibaia ao Paraná. No entanto, o café continuou o seu desenvolvimento com o avanço das estradas de ferro e abertura de novas áreas.
A cultura do café no Brasil, após a sua implantação, apresentou ciclos de expansão e crises, de acordo com as variações da economia mundial. O café brasileiro representa hoje cerca de 6% da nossa receita cambial, mas no passado já chegou a ser responsável por cerca de 80%. A receita com as exportações de café atingem atualmente mais de 2 bilhões de dólares por ano. Internamente, cerca de 3,5 bilhões de cafeeiros são cultivados em 350 mil propriedades agrícolas, ocupando diretamente 1,5 milhão de trabalhadores e mais 2,5 milhões de pessoas dependentes. Isto sem contar aqueles que trabalham no transporte, comércio e industrialização do café. Os principais Estados produtores são Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Espírito Santo. Pode-se dizer que um em cada grupo de dez brasileiros trabalha ou vive em função do café. Mas o café é a bebida preferida de todos os brasileiros.....pois café é uma bebida natural e a mais saudável para consumo pelo ser humano.
1. MAGALHÃES, Basílio de. O café; na história, no folclore e nas belas-artes. 3ª ed. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1980. Brasiliana, v. 174
2. LIMA, Darcy R. Coffee, a Medicinal Plant, Vantage Press, New York, 1990.
3. LIMA, Darcy R. Cuidado..O café e a Mulher podem fazer bem a saúde. MEDIKKA, RJ, 2003