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Mais de 25 % da população adulta do mundo civilizado possui distúrbios do sono, como hipersonia (51 %), insônia (31 %), parasonia (15 %) e modelo desorganizado e variado de sono (3%). O sono é um processo fisiológico que a natureza desenvolveu durante o processo da evolução para o crescimento e desenvolvimento dos seres vivos. Durante o sono ocorre uma abolição da consciência vigil e uma redução da resposta ao meio ambiente, de forma rítmica e reversível, acompanhada da mudança em muitas funções do organismo. Quando as oscilações e mudanças fisiológicas rítmicas se aproximam do período de 24 horas de rotação da Terra, denomina-se ritmo circadiano (do latim circa dia). Relógios biológicos ainda desconhecidos determinam esta ritmicidade. A alternância sono-vigília parece depender de processos neuronais cíclicos atuando como verdadeiros relógios, ou sistemas neuro-biológicos, havendo possivelmente um sistema de geração do sono e um sistema de regulação circadiano do sono. É possível estudar estas etapas através de vários registros como o eletroencefalograma, o eletromiograma, o eletrooculograma, o eletrocardiograma, os movimentos respiratórios, o fluxo aéreo respiratório, os movimentos dos membros, mudanças endócrinas e de níveis de substâncias no sangue e do controle do relato do sono e dos sonhos. O sono normal avaliado por métodos fisiológicos como a polissonografia (PSN), que registra o EEG, o eletroculograma, o eletromiograma, o ECG, a oximetria do lóbulo da orelha, o fluxo aéreo nasal e/ou oral e os movimentos torácicos e abdominais, é classificado em duas fases:
a. SONO PARADOXAL, DESSINCRONIZADO (SD) ou "REM" ("Rapid Eye Movements" do inglês)
b. SONO PROFUNDO, SINCRONIZADO (SS) ou não-"REM"
O sono humano é dividido em estágios, que diferem basicamente, pois resulta de uma série de mecanismos fisiológicos como desativação de mecanismos de vigília, mediados pela formação reticular ascendente, bem como ativação de neurônios giganto-celulares colinérgicos do tegmento pontino (sono REM) e/ ou de neurônios serotoninérgicos na rafe pontina (sono não-REM). O sono não-REM é dividido em 4 estágios, baseados em alterações eletroencefalográficas. O ESTÁGIO 1 (sono leve ou inicial) se caracteriza por um desaparecimento do ritmo alfa (da vigília) no EEG com ondas de baixa amplitude e frequência mista, com surgimento de movimentos oculares lentos e amplos, o ESTÁGIO 2 por fusos do sono e complexos K no EEG, o ESTÁGIO 3 por ondas mais lentas (ondas delta) que passam a dominar mais da metade do tracado no ESTÁGIO 4 (sono profundo ou de ondas lentas e de grande amplitude) . O sono começa com um breve estágio 1 da fase não-REM, e em 1 a 2 horas evolui até o primeiro episódio de sono REM. Ciclos regulares ocorrem durante a noite, em número de quatro a seis, com aumento da duração do sono REM e desaparecimento dos estágios 3 e 4 ao final, próximo ao despertar. O indivíduo evolui progressivamente de uma sonolência (estágio 1), para um sono leve (estágio 2) e depois para um sono profundo (estágios 3 e 4) em cerca de 60 a 90 minutos. Estes estágios fazem parte do chamado SONO LENTO ou SONO NREM (não-REM). A seguir ocorre o Sono Paradoxal ou Sono REM (do inglês Rapid Eye Movements). Trata-se de uma fase do sono onde ocorrem movimentos oculares rápidos dos olhos e os sonhos, além de um padrão eletroencefalográfico caracteristico. O EEG do sono REM é semelhante ao estado de vigília, embora o indivíduo esteja dormindo, sonhando e com sua atividade muscular suprimida. O sono REM dura em torno de 10 a 20 minutos. A duração total desde o início do sono até o final do estágio REM é em torno de 90 minutos, sendo denominado ciclo ultradiano e se repete sucessivamente várias vezes durante a noite. Os sonhos ocorrem regularmente nas fases REM do sono. Esta fase aumenta em sua duração com o transcorrer do sono, ao mesmo tempo em que os estágios do Sono Lento vão desaparecendo, até que o indivíduo acorde pela manhã. Geralmente ele se lembra do conteúdo dos sonhos ocorridos nas últimas fases de sono REM, embora tenha tido outros tipos de sonhos no início da noite. Crianças dormem mais que o adulto, sendo que um recém-nascido gasta a quase totalidade das 8 a 16 horas de seu sono diário na fase REM. Apenas com o crescimento é que começam a surgir os outros estágios (3 e 4) no crescimento orgânico. Talvez o sono REM dominante esteja ajudando o desenvolvimento e crescimento do cérebro, e processando as informações do mundo exterior, criando a memória, permitindo-o então conhecer seus pais e seu mundo exterior. Ocorre o desenvolvimento do inconsciente, de sua personalidade e de sua estrutura psicológica, onde o sono e os sonhos passarão a ocupar um papel importante pelo resto da vida.
Quase 1/3 dos adultos apresenta insônia durante a vida, sendo que a metade destes apresenta problemas que exigem cuidados médicos. A insônia pode ser transitória e de curta duração, ocorrendo por alguns dias, devido principalmente a situações estressantes agudas ou quando o ritmo circadiano é prejudicado por viagens aéreas intercontinentais. A insônia de curta duração durando algumas semanas ocorre em pessoas que apresentam uma doença aguda ou sofrem uma situação estressante temporária, como perda ou crise familiar, pessoal ou problemas financeiros. A insônia de longa duração, que persiste por meses ou anos, decorre mais comumente de problemas psíquicos, como ansiedade crônica ou depressão, abuso de álcool ou drogas, problemas clínicos crônicos dolorosos ou distúrbios específicos como apnéia do sono ou mioclonias noturnas (contrações abruptas, repetitivas e rítmicas de flexão dos membros inferiores que provocam despertar) e a síndrome das pernas inquietas (parestesia desconfortáveis dos membros inferiores tipo queimação). Distúrbios do ciclo sono-vigília são comuns e tendem a aumentar nos centros industrializados, particularmente nos trabalhadores de turnos variáveis, que se submetem a mudanças periódicas e bruscas do ciclo normal do sono. Devido à lentidão na adaptação do relógio biológico à mudança, ocorrem distúrbios importantes no sistema nervoso central com cansaço e sonolência excessivos. Há um maior risco de úlcera péptica, gastrite, hipertensão arterial e acidentes de trabalho.
A sonolência diurna ou hipersonia afeta de 1 a 4 % da população e as principais causas são a narcolepsia, a síndrome da apnéia do sono, a insuficiência de sono noturno e a hipersonia idiopática. A síndrome narcoléptica é caracterizada por 4 componentes: crises de sono, cataplexia, alucinações hipnagógicas e paralisia do sono, os quais podem ocorrer isoladas ou conjuntamente, sendo os ataques diurnos de sono a principal queixa. O distúrbio começa na adolescência ou vida adulta e parece ser um problema genético relacionado ao sistema HLA-DR 2, havendo uma anormalidade no metabolismo das aminas cerebrais. O quadro de sonolência excessiva se inicia em torno dos 20-30 anos de idade e, após um despertar com boa disposição e alerta, em 2-3 horas o indivíduo precisa cochilar, quase que de forma irresistível, havendo prejuizo no trabalho, escola ou mesmo acidentes de tráfego. É comum o rótulo de muito cansaço, preguiça ou excesso de trabalho. Na cataplexia ocorre perda do tônus muscular de forma repetitiva, parcial ou generalizada, durando segundos ou minutos, sem alterações da consciência e sem movimentos anormais. Na paralisia do sono há uma impossibilidade de se mover logo ao despertar (segundos), quer após cochilos ou após o despertar do sono noturno. As alucinações hipnagógicas são descritas como sonhos vívidos, quase reais, que surgem logo ao adormecer.
A apnéia do sono e uma anomalia potencialmente letal, onde ocorre uma parada da respiração por 10 segundos ou mais, podendo o episódio ocorrer em torno de 100-200 vezes durante o sono noturno. A apnéia pode ser devido um problema obstrutivo da vias aéreas superiores, uma anomalia central ou formas mistas. A causa mais comum é a obstrutiva, sendo raros os problemas como lesão do tronco cerebral e depressão neurológica (poliomielite, tumores de fossa posterior) ou de causa idiopática. Ocorre particularmente em pessoas obesas e com doença pulmonar obstrutiva crônica, sendo freqüente a queixa de roncos e agitação durante o sono (episódios de apnéia seguidos de breves e despercebidos despertares). É um problema comum em homens adultos, que se queixam de sonolência excessiva durante o dia. Ao dormir, em cada apnéia obstrutiva o paciente apresenta um grande esforco respiratório com movimentos torácicos intensos e inúteis sem desencadearem fluxo aéreo, devido obstrução na orofaringe. A hipoxia e hipercapnia decorrente aumentam o esforço respiratório, levando a um despertar breve e desobstrução pela musculatura da orofaringe (tono de vigília). O ciclo de repete dezenas ou centenas de vezes durante o sono.
O sonambulismo se caracteriza por um comportamento automático e perseverante nas primeiras horas do sono (sentar na cama, deambular), mais comumente com movimentos grosseiros e despropositados, ficando os olhos abertos, fixos, face inexpressiva. Há pouca resposta aos estímulos externos e dificuldade em despertar o indivíduo, o qual pode reconhecer o ambiente, evitar móveis ou esbarrar em alguns e perder o equilíbrio. O quadro dura pouco (1 minuto) e ocorre em episódio isolado a noite, ocorrendo regresso ao leito ou adormecimento onde estiver o indivíduo (sofá, chão). Há uma amnésia do episódio no dia seguinte e os familiares são importantes para fornecerem detalhes sobre o quadro. O sonambulismo se inicia na idade pré-escolar, em ambos os sexos e pode persistir até os 10 anos de idade, ocorrendo em 5 a 10 % das crianças, desaparecendo espontaneamente na segunda decada da vida. Em gêmeos monozigóticos, o quadro ocorre em ambos (base genética comum) e o quadro esta associado a uma maior ocorrência de terror noturno.
O terror noturno surge nos primeiros estágios do sono de forma súbita, com gritos, choros e temor, associado a manifestações autonômicas (midríase, sudorese, piloereção, taquicardia, taquipnéia). Geralmente de curta duração (menor que 30 segundos), podendo entretanto ser prolongado (10-20 minutos), o quadro se associa a gestos incoordenados, automáticos e com amnésia ao despertar. O episódio geralmente é isolado, se inicia em pré-escolares, de ambos os sexos, persistindo por alguns meses ou durando mesmo toda a infância, acometendo cerca de 4 % da população infantil, desaparecendo na puberdade. Há história familiar devido padrão genético hereditário do problema, desencadeado por fatores ambientais (fadiga, privação do sono, estresse).
O ranger dos dentes (bruxismo) é caracterizado por uma contração dos músculos da face durante o sono (massetérico, pterigoideos, temporais), o que determina um contato e atrito das superfícies dentárias. O quadro ocorre em 2 a 12 % das crianças em geral e em 3 a 5 % dos adultos, em ambos os sexos. Diversas e pouco definidos fatores atuam, como aspectos emocionais, desenvolvimento do sistema nervoso central e fatores orais, havendo relação com a tensão, frustração e hostilidade do indivíduo.