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Durante o dia, sob a luz do sol, ao olharmos para céu, somos capazes de ver e identificar o astro rei e as nuvens e fazer uma previsão se o dia será ensolarado, nublado ou chuvoso. Podemos deduzir se os pássaros voarão ou não e se os vôos serão suspensos em grandes cidades sob ameaça de um intenso temporal. Caso ocorra uma mudança metereológica drástica é fácil prever riscos, problemas e mesmo mortes nas regiões afetadas. É durante a noite que vemos a lua, as centenas de milhares de estrelas brilhando no firmamento e que concebemos e deduzimos a imensidão do universo. Olhando o céu estrelado, aceitamos o fato de que deve existir algo que não conhecemos nas profundezas do infinito. Este desconhecido é concebido no nosso cérebro, através da consciência e da nossa inteligência e pode ser presumido na forma de outros planetas e seres extraterrestres, talvez até bem mais evoluídos que nós. Em que canto do universo estarão os alienígenas? Em quais galáxias distantes existem formas superiores de vida?
Porque dormimos a noite, exatamente quando nossa visão entra em contato com algo maior e mais profundo comparado com o pouco que vemos durante o dia, sob a luz do sol? Será que dormimos quando o universo aparece para nos comunicarmos melhor com ele por meio do sono e dos sonhos? Quando estamos acordados, com uma simples olhadela, conectamos a visão, a mais desenvolvida e versátil de todas as modalidades sensoriais pelo córtex visual primário no lobo occipital, onde ocorre tal percepção. Esta região é envolvida pelo córtex visual de associação que ocupa quase todo o resto do lobo occipital, cuja função consiste na interpretação das imagens, reconhecimento e percepção da distância, profundidade e cores. As regiões próximas dos lobos temporal e parietal, mais especificamente os giros angular e supramarginal do lóbulo parietal inferior, formam uma interface funcional entre as áreas de associação auditiva e visual. A medicina moderna admite que as funções cognitivas superiores, quando estamos acordados, são desempenhadas por um dos hemisférios cerebrais, referido como dominante para esta função. Na maioria das pessoas o hemisfério esquerdo é o dominante para linguagem e habilidade matemática, enquanto que o hemisfério direito é superior na percepção espacial e proficiência musical. Na formação do cérebro, durante a infância, os dois hemisférios apresentam capacidade lingüística e caso um deles seja lesado, essa capacidade pode ser compensada pela plasticidade do cérebro em desenvolvimento. Isto é, o cérebro de crianças e jovens possui mais capacidades latentes que o cérebro do adulto, quando acordado.
As crianças dormem mais que os adultos, durante o crescimento, desenvolvimento e aprendizado. Será que durante o sono e os sonhos, crianças também possuem e desenvolvem mais capacidades latentes que possam vir a ser usadas na vida adulta? Porque, na Oração da Noite, o cristão adulto pede ao Criador: “Que os sonhos fujam de nós, longe os fantasmas da noite; defendei-nos no inimigo, guardai-nos em vosso amor”. Porque muitos profetas foram escolhidos para sua missão através de sonhos e visões quando ainda eram crianças ou jovens, como Daniel, Ezequiel, Isaías ou Zacarias, que começaram a profetizar antes de ter dezoito anos da idade? Porque será que mulheres grávidas, com crianças no ventre, além da maior sensibilidade para todos os sentidos, podem receber mensagens em sonhos sobre a missão de seus filhos, como a mãe de João Batista, Isabel e de Jesus, Maria?
O sonho é um dos grandes mistérios do cérebro humano. Quase todo ser humano quando criança já teve um sonho no qual estava nadando numa piscina, num lago ou no mar quando acordou e descobriu que a cama estava toda molhada. Foi um sonho vinculado a uma realidade, a de que estivesse com o corpo molhado. Pesquisas mostram que algumas pessoas podem sonhar com acontecimentos futuros, vivências passadas e mesmo a capacidade de ver, prever ou viver experiências reais da própria vida ou a de outras pessoas. Sonhar é normal, difícil é explicar. Será possível julgar os sonhos a fim de transformar a vida e promover o desenvolvimento humano físico, mental e espiritual? Um homem de 60 anos sonha durante sua vida um mínimo de cinco anos e passa quase vinte anos dormindo. Caso ele tenha somente pesadelos durante toda sua vida, certamente ele não será uma pessoa normal. Todos sabemos os resultados de um pesadelo após uma noite maldormida assim como a paz do dia seguinte a um sono tranqüilo com sonhos agradáveis. A Bíblia é rica no relato da importância dos sonhos que dirigiram o destino da humanidade em momentos decisivos. Sigmund Freud afirmava que o conhecimento e a interpretação dos sonhos é a estrada principal para se chegar ao conhecimento da alma. Caso um trabalhador tivesse certeza de sonhar todas as noites durante oito horas que era um rei, seria tão feliz quanto um rei que sonhasse todas as noites por oito horas que era um trabalhador ou o próprio rei? Para a ciência, o sono é um processo fisiológico que a natureza desenvolveu durante o processo da evolução para o crescimento e desenvolvimento do cérebro e dos próprios seres vivos. Para a medicina o sono serve para restaurar os processos químicos e físicos deteriorados pela consciência durante as atividades do dia bem como para que o cérebro cresça, aprenda, consolide a memória, apague aquelas indesejáveis e descarregue as emoções negativas e danosas para nossa saúde mental. O sono organiza nossa memória, aumenta nossas defesas e poupa nossas energias. William Shakespeare escreveu que “o sono desembaraça a seda enredada das preocupações, é o bálsamo que alivia as dores do trabalho e o principal alimentador do festim da vida”.
Modernamente acredita-se que o sono e os sonhos são fundamentais também para a mente humana obter a paz de espírito, assim como aconteceu com nossos antepassados bíblicos, através de uma comunicação de nosso mais profundo interior com Deus. Para a neuropsicoteologia o sono e os sonhos oferecem um grande caminho para o entendimento do mistério da interação entre o corpo, a mente e a alma humana. O sonho pode representar idéias para o espírito. Deus pode agir em conformidade com as leis da mente e talvez use o sono e os sonhos para nos enviar mensagens. O livro Gênesis relata a primeira indução importante do sono, quando Adão, após ter sido criado a imagem e semelhança de Deus, serviu para a criação da mulher: “Então o Senhor faz cair um sono pesado sobre o homem, e este adormeceu; tomou, então, uma das suas costelas, e fechou a carne em seu lugar“ (GÊNESIS 2:21). São inúmeras as citações do sono e dos sonhos na Bíblia, como mensagens divinas ou como adivinhações e previsões do futuro. Mostram que mesmo que seja um sonho, mesmo que seja uma ilusão, se existe dentro de alguém, é porque existe o desejo para ela. É preciso sonhar, mas com a condição de crer no sonho, de examinar com atenção a vida real, de confrontar a observação com o sonho para poder realizar as fantasia e os desejos de nossa vida. É preciso acreditar nos sonhos. Mas se dormir e sonhar é tão bom, existe sono no Céu ou lá vivemos apenas um belo e eterno sonho?
Nas civilizações antigas de Israel, Grécia e Egito o sono e os sonhos eram reconhecidos como veículos de revelações divinas, particularmente o sono e os sonhos de reis e profetas. A palavra profeta deriva-se do grego prophetes, que quer dizer pessoa que fala em lugar de outra como intérprete, ou proclamador, e também pessoa que prediz o futuro. Este duplo sentido é devido à preposição pro, que tem o sentido de por e antes. O vocábulo hebraico nabi, profeta, significa pessoa que anuncia, tomado em sentido genérico. Em outra língua semítica, o assírio, significava anunciante. O patriarca Abraão tornou-se monoteísta e o escolhido por Deus após ter sido orientado por visões celestiais ou sonhos proféticos. Abraão teve revelações especiais por meio de sonhos, visões e teofanias, que eram manifestações divinas à criatura humana, através de anjos ou manifestações incorpóreas de aparência humana: “O Senhor disse a Abrão: Sai de tua terra, de tua parentela, da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei. Farei de ti um grande povo e te abençoarei, engrandecendo teu nome, de modo que se torne uma bênção. Abençoarei os que te abençoarem, e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Com teu nome serão abençoadas todas as famílias da terra” (GÊNESIS 12:1-3).
Havia entre Abraão e Deus, relações pessoais muito diretas; Deus lhe confiava seus propósitos e desta maneira Abraão ficou habilitado a transmitir a seus descendentes o verdadeiro conhecimento e a vontade divina. Abraão possuía um cérebro iluminado que atuava como intercessor junto de Deus. Foi num sonho que Deus veio avisar a Abimeleque, rei de Gerara, que ele iria morrer por ter tomado a mulher do profeta Abraão para si, pois este lhe dissera que ela era sua irmã, quando foram recebidos em seu palácio. Abraão já tinha usado esta mesma estratégia quando estivera no Egito e o Faraó tomou sua mulher, sendo depois castigado por isto: “E disse-lhe Deus em sonhos: Bem sei eu que na sinceridade do teu coração fizeste isto; e também eu te tenho impedido de pecar contra mim; por isso não te permiti tocá-la. Agora, pois, restitui a mulher ao seu marido, porque profeta é, e rogará por ti, para que vivas; porém se não lha restituíres, sabe que certamente morrerás, tu e tudo o que é teu” (GÊNESIS 20:6-7).
Abraão era um homem de paz, mas em tempos de guerra era corajoso e forte para combater pelos seus parentes e amigos, recebendo revelações especiais de Deus através de seus sonhos. Será que nós não podemos também ter sonhos e revelações especiais, vinculados a nossa realidade?
Miriã (ou Maria) foi a irmã mais velha de Moisés e Arão. Foi ela que vigiou o cestinho onde estava o ainda pequenino Moisés boiando nas águas do Nilo até ser achado pela filha do Faraó, que se banhava no rio. Ao ver a bela e sadia criança chorando, ela ficou penalizada e resolveu adotá-la. Miriã, que olhava escondida, adiantou-se e sugeriu à princesa que chamasse uma mulher hebréia para cuidar da criança. Assim Moisés foi criado pela própria mãe, sendo mais tarde nomeado pela mãe adotiva, a filha do Faraó, que significava porque eu o tirei da água. Miriã era uma profetisa e Deus a escolheu, junto com seus irmãos, para serem os guias do povo hebreu. Quando Miriã e Arão criticaram Moisés por ter se casado com uma mulher etíope e mentiram afirmando ter falado com Deus sobre isto, Miriã foi castigada, ficando com a pele branca como a neve, devido à lepra, da qual foi curada por intervenção de Moisés: “O Senhor ficou indignado e retirou-se. Apenas a nuvem se afastou da tenda, Miriã ficou leprosa, branca como a neve. Voltando-se para Miriã, Arão viu-a toda coberta de lepra. Arão disse a Moisés: Perdão, meu senhor! Não nos faças pagar pelo pecado que tolamente cometemos. Não fique Miriã deformada como o aborto que sai do ventre materno. Então Moisés clamou ao Senhor , dizendo: Oh não! Cura-a por favor!” (NÚMEROS 12:9-13).
Moisés, criado como filho adotivo na corte egípcia, teve uma boa educação, pois o Egito era o país mais evoluído naquela época. Preparado para ser o herdeiro do trono dos Faraós, adquiriu os dotes de um estadista ao mesmo tempo em que Deus o estava preparando para servir de condutor dos hebreus. Moisés tinha grande inteligência, sabedoria e conhecimento e descobriu através de seus sonhos que Deus o chamara para servir de juiz e libertador dos israelitas, seus irmãos. Após matar um egípcio para defender um dos hebreus, fugiu para a terra de Mídia ao ver descoberto seu crime. Lá, com quarenta anos de idade, foi recebido pelo sacerdote Jetro, com o qual passou a cuidar do rebanho e veio a se casar com uma de sua filhas. Quarenta anos mais tarde, com 80 anos, após ter tido dois filhos, Gérson e Eliezer, Moisés foi surpreendido com o incêndio de uma sarsa que ardia sem se consumir. Foi ali que recebeu a mensagem do Senhor para ir libertar seu povo, com a ajuda de seu irmão, Arão. Após vencer a indecisão, insegurança e falta de confiança, Moisés teve seu pacto com Deus mantido quando sua esposa realizou a circuncisão de seu filho. No Egito, Moisés e Arão compareceram diversas vezes à presença do Faraó, ao qual convenceram a libertar o povo hebreu para conduzi-lo pelo deserto à Terra Prometida, após sucessivos castigos e pragas atraídas sobre o Egito por intercessão de Moisés junto à Deus. Moisés falava diretamente com Deus e recebia revelações para instruir seu povo, muitas vezes através de visões e sonhos. Recebeu os dez mandamentos, jejuou quarenta dias e quarenta noites e se apresentou ao seu povo com raios de luz que saíam de sua face, pois seu cérebro estava totalmente iluminado por Deus, a ponto de necessitar um véu para cobrir o rosto.
No segundo ano de sua viagem, após o falecimento de sua primeira esposa, casou-se com uma mulher etíope, despertando a contrariedade de seus irmãos. Mas através da fidelidade e obediência inquebrantável aos desígnios de Deus, Moisés organizou o povo hebreu, dotou Israel com instituições civis e religiosas de primeira ordem, responsáveis pela mais elevada moral eu a humanidade jamais possuiu, representada pelos dez mandamentos.
Deus também se comunicou através dos sonhos com Jacó, com Labão, com José, com o Faraó, com o padeiro mor e o copeiro do Faraó, com Salomão, com Nabucodonosor, com Daniel e com José, esposo de Maria bem como com os reis magos. Uma das qualificações do profeta era a visão ou os sonhos, por isto o profeta era também chamado de vidente. Todos videntes eram muito respeitados e estimados pelos povos antigos e mesmo na atualidade.
Na história primitiva de Israel, os profetas Samuel, Gade e Ido eram designados por este nome. Samuel deixou de ser um simples vidente a quem o povo recorria logo que precisou invocar a Deus, para saber a Sua vontade em referência aos deveres de Seu povo, bem como em referência aos negócios da república e para regular os interesses privados e individuais. Samuel subiu na categoria social e foi tido como a maior autoridade enviada por Deus, sendo, portanto, proclamado como profeta:” Quando chegaram a Gabaá, de fato um bando de profetas vieram-lhe ao encontro, o espírito de Deus tomou conta dele, e Saul entrou em transe no meio deles” (1 SAMUEL 10:10). Este papel de liderança, de criador de esperanças, como aconteceu com Moisés, tornou-se importante com Samuel e continuou com os seus sucessores, sendo sempre renovadas com a força de outros pelos séculos a seguir. A presença do profeta foi destacada, o qual se tornou uma figura indispensável na vida do povo e como embaixador do céu junto ao reino de Israel, Atuou como pregador da justiça e intérprete da história passada e do presente. No campo moral, o profeta denunciava as conseqüências da conduta moral e lembrava a todos o juízo de Deus contra o pecado. A palavra vidente tinha um sentido muito mais restrito e deu lugar a outro termo de sentido mais amplo, incluído no vocábulo profeta. Samuel era vidente e profeta e seus notáveis sucessores, que Deus inspirou para ensinar a verdade ao povo, tinham o nome de profetas, conforme diziam os homens de seu tempo. O nome vidente não caiu em desuso, mas o título de profeta, que não havia sido abandonado inteiramente, assumiu de novo sua primitiva importância.
Muitos profetas eram capazes e tinham a função de predizer o futuro ou declarar o conselho secreto do Senhor, como fez Natã, quando proibiu Davi de iniciar a construção do templo e anunciou o propósito divino de estabelecer eternamente o trono de Davi. Amós teve visões proféticas e por isso os sacerdotes de Betel o chamavam de vidente, ou homem das visões, sem contudo deixar de ser chamado para o exercício da profecia. Pelo fato da investidura especial que os profetas recebiam do alto, eram chamados homens do Espírito, embora fossem até hostilizados pelo povo: “A sentinela de Efraim junto ao meu Deus é o profeta, uma rede está estendida em todos os seus caminhos. Há hostilidade na casa de seu Deus” (OSÉIAS 9:8). O profeta, em comum com os outros ministros de Deus era tido como homem de Deus, servo de Deus, mensageiro do Senhor, pastor do povo de Deus, vigia e intérprete. O profeta deveria pertencer por nascimento ao povo de Israel; isto, porém, não impedia que o Senhor, sábio e onipotente não se manifestasse por meio de visões a um filisteu, a um egípcio, a um midianita, a um babilônio ou a um romano (GÊNESIS 20:6; JUÍZES 7:13; MATEUS 27:19). Até o próprio Balaão, que era feiticeiro e foi chamado pelo rei de Moabe para amaldiçoar o povo de Israel se serviu de sonhos para profetizar. Muitos profetas estrangeiros estiveram em contacto com o reino de Deus, aos quais era concedida uma visão do futuro.
Os sonhos muitas vezes são um espelho da alma e da consciência moral, que regula e censura o comportamento interior e exterior, através ou não de um desejo divino. Teofanias, como as relatadas no Antigo Testamento, são vividas por milhares de pessoas mesmo na atualidade. Jacó, neto de Abraão, quando viajava, teve uma visão ou um sonho especial. Uma escada posta sobre a terra subia e alcançava o céu e por ela estavam anjos subindo e descendo. Deus, no topo da escada, renovou a promessa das bênçãos do pacto feito com Abraão. Foi belo o sonho de Jacó, o verdadeiro pai do povo escolhido, que teve 12 filhos que se tornaram os chefes das doze tribos de Israel: “Chegou um lugar onde passou a noite, porque o sol já se havia posto. Tomando uma das pedras daquele lugar e fazendo-a de travesseiro, deitou-se ali para dormir. E sonhou: Eis que uma escada estava posta na terra, cujo topo chegava ao céu; e os anjos de Deus subiam e desciam por ela. Por cima dela estava o Senhor, o Deus de Abraão, e o Deus de Isaac, teu pai. Esta terra em que estás deitado, eu a darei a ti e a tua descendência“ (GÊNESIS 28:11-13.
A Bíblia mostra que Deus usa os sonhos para fins especiais, embora existam sonhos vãos. Os sonhos tinham por objetivo despertar a vida espiritual das pessoas conforme aconteceu com Gedeão, cujo sonho serviu para incutir-lhe ânimo e assim derrotar seus inimigos: “Gedeão se achegou e ouviu um homem contar um sonho ao companheiro. Ele dizia: Tive um sonho. Vi um pão redondo, de cevada, rolando sobre o acampamento de Madiã. Ao chegar à tenda, bateu nela, virou-a para cima e a tenda caiu por terra. O companheiro comentou: Isto só pode ser a espada de Gedeão, o israelita. Em seu poder Deus entregou Madiã e todo o acampamento”(JUÍZES 7:13).
A faculdade de interpretar os sonhos, na atualidade praticada por psiquiatras e psicólogos no âmbito pessoal, foi conferida a alguns personagens da Bíblia, como José e Daniel, os quais interpretavam sonhos proféticos. José foi o filho predileto de Jacó e Raquel, pois era o filho de sua velhice e o décimo primeiro da família. Por isto suscitou a inveja de seus irmãos, sentimento que se tornou mais intenso quando José, ainda criança, previu que haveria um tempo em que seu pai, sua mãe e seus irmãos se curvariam na sua presença, despertando o ódio de seus irmãos ao contar-lhes o sonho: “Ora, José teve um sonho e contou aos irmãos, que o odiaram ainda mais” (GÊNESIS 37:5).
Muitas vezes um sonho deve ser um segredo somente para aquele que o possui. Um dia, após ter completado dezessete anos de idade, foi procurar seus irmãos no campo, os quais cuidavam dos rebanhos. Ainda ressentidos, alguns irmãos resolveram matá-lo e dizer ao velho pai Jacó, com mais de cem anos, que uma fera havia devorado José. Mas seu irmão e filho mais velho de Jacó com Lia, Rúben, e opôs a isto, pensando em lançá-lo vivo em uma cisterna, para depois tirá-lo e devolvê-lo ao seu pai. Rúben sabia do amor de Jacó pelo filho e agiu de forma humanitária e amorosa para com seu pai e seu irmão, embora mais tarde viesse a fazer algo desonesto ao dormir com Bala, a concubina de seu pai. José foi então vendido como escravo a uma caravana que viajava para o Egito. Seus irmãos tingiram sua túnica com sangue de cabrito e levaram Jacó a acreditar que seu querido filho tinha sido devorado por uma fera. No Egito, José foi vendido a Potifar, oficial do Faraó e general de seus exércitos. Assumiu o governo a casa do general, mas ao recusar-se ser seduzido pela esposa do general, foi caluniado pela mulher rejeitada e vingativa, o que lhe custou alguns anos de prisão. Ali ganhou a confiança do carcereiro que lhe confiou a guarda dos presos, quando teve a oportunidade de mostrar a graça divida e interpretar os sonhos proféticos do padeiro-mor e do copeiro-mor do Faraó: “Certa noite, o chefe dos copeiros e o chefe dos padeiros do rei do Egito, que estavam presos no cárcere, tiveram um sonho, cada qual com o seu significado” (GÊNESIS 40:5).
A vida dos governantes na antiguidade era perigosa, pois além das guerras e seus inimigos, temiam a tudo e a todos, temendo ser envenenados em seu próprio palácio, vivendo com medo durante o dia e cheio de pesadelos à noite. Na atualidade também é perigosa à vida de pessoas ricas e famosas, que precisam andar sempre cercadas de seguranças e mal conseguem dormir em paz. Os reis e faraós do passado tinham um copeiro-mor, que era responsável por encher o cálice do governante e servi-lo. Este ofício era muito honroso nos países orientais, pois era exercido por homens de confiança, a fim de evitar envenenamentos. No século V a. C., o judeu Neemias conseguiu conquistar, mesmo sendo estrangeiro, a confiança do grande rei dos persas, Artaxerxes Longímano e se tornou seu copeiro. Como copeiro e amigo do rei, conseguiu também obter seu apoio para reconstruir os muros de Jerusalém, mostrando como é importante se ter bons amigos mesmo entre os inimigos.
As interpretações dos sonhos feita por José sempre se realizava em todos os seus detalhes. Quando o padeiro-mor reassumiu suas funções, ao saber que o Faraó estava tendo sonhos enigmáticos, recomendou José para interpretá-los: “Depois adormeceu e sonhou pela segunda vez: viu sete espigas bem graúdas e belas, saindo do mesmo caule. Mas atrás delas brotaram sete espigas chochas e ressequidas pelo vento leste. As sete espigas chochas engoliram as sete espigas belas e graúdas. Então o Faraó acordou e viu que era um sonho” (GÊNESIS 41:7).
José informou que os sonhos do Faraó tinham o mesmo sentido e que haveria sete anos de grande abundância que seriam seguidos por outros sete de fome. Aconselhou o Faraó que nomeasse uma pessoa competente para armazenar provisões para os anos de penúria que viriam. O Faraó não apenas aprovou seu plano mas nomeou-o superintendente de todo o Egito, segundo abaixo do Faraó, quando tinha apenas trinta anos de idade. Deu-lhe também por esposa, Asenete, filha de um sacerdote, com quem teve dois filhos, Manassés e Efraim. Conforme sua profecia, a fome chegou atingindo toda o Egito e regiões vizinhas. Os irmãos de José foram então ao Egito para comprar alimentos, onde não reconheceram José, mas este os identificou. Perdoou-lhes o mal que haviam feito e convidou-os para virem morar no Egito, junto com o velho e amado pai. José morreu com 110 anos, quando foi embalsamado e sepultado no Egito, sob a promessa de ser transportado para Canaã no futuro.
Pode existir um pesadelo maior do que o de ser jogado vivo numa cova cheia de leões famintos pelo um grande amigo, influenciado por falsos amigos, cheios de ódio e inveja? O conhecimento e interpretação dos sonhos tornou este pesadelo realidade para Daniel. Ele foi levado cativo por Nabucodonosor ainda jovem, quando este realizou o primeiro cerco de Jerusalém no reinado de Joaquim em 605 a C. Na Babilônia Daniel mostrou ser um grande sábio e passou a interpretar os sonhos do rei, sendo elevado a posição de príncipe dos sábios e governador de todas as províncias e prefeitos de todos os magistrados. Daniel interpretou um sonho que revelava a loucura próxima do rei. A inveja provocada por sua eminência e sabedoria deu origem a uma conspiração que o levou a ser lançado no lago dos leões. Dario decidiu estabelecer 120 sátrapas sobre o império, de modo que os houvesse em todo o império. Acima deles havia três ministros supremos, e entre eles Daniel, aos quais os ditos sátrapas deveriam prestar contas, de modo que o rei não fosse lesado. Daniel sempre se sobressaía sobre os ministros e sátrapas por seu espírito brilhante. Então os colegas-ministros e os sátrapas se empenharam em descobrir em Daniel um motivo de acusação na gestão dos negócios do reino; mas não conseguiram descobrir culpa ou falta alguma. Ele era de uma fidelidade a toda a prova, não se descobrindo nele qualquer negligência ou falta. Então estes homens disseram: “Não conseguiremos descobrir neste Daniel nenhuma culpa, a não ser que o consigamos a propósito da sua religião”.
Em seguida foram insistir com o rei, falando-lhe que deveria ser estabelecido por decreto real a proibição de toda pessoa se dirigir através de prece a qualquer deus ou homem, salvo a sua Majestade. Caso apenas o rei não fosse bajulado e mesmo endeusado, o rebelde seria lançado na cova dos leões. O rei Dario assinou o documento com a proibição. Quando Daniel soube do decreto, dirigiu-se à sua casa e de forma escondida, três vezes ao dia se lançava de joelhos, rezando e louvando seu Deus, como estava habituado a fazê-lo. Mas os seus inimigos o encontraram dirigindo preces e súplicas a Deus e o denunciaram ao rei que a contragosto mandou prender Daniel. Muito desapontado, tomou a resolução de salvar Daniel e até o pôr-do-sol se empenhou por libertá-lo. Mas seus inimigos percebendo isto, insistiram com o rei dizendo que qualquer lei e proibição dos medos e persas que o rei tiver sancionado era irrevogável. O rei deu ordem de chamar a Daniel e o lançá-lo na cova dos leões. Ele lhe disse: “Teu Deus, a quem prestas culto com tanta perseverança, te salvará!” Em seguida trouxeram uma pedra e a colocaram na boca da cova; o rei a selou com seu sinete e com os sinetes dos seus conselheiros, para que nada se mudasse a respeito de Daniel. Depois o rei se retirou para o palácio. Passou a noite em jejum e nem quis que lhe trouxessem comida; o sono lhe fugiu dos olhos. Ao raiar da aurora, bem de madrugada, o rei se levantou e se dirigiu depressa à cova dos leões. Quando chegou perto da cova, gritou para Daniel com voz angustiada: “Daniel, servo do Deus vivo! Então teu Deus, a quem prestas culto com tanta perseverança, conseguiu salvar-te dos leões?”. Daniel respondeu ao rei: “Majestade, vida eterna. O meu Deus enviou seu anjo que fechou a boca dos leões, de modo que não me fizeram mal, porque fui considerado inocente na presença dele; tampouco pratiquei qualquer crime contra ti, Majestade!” Com isto o rei ficou muito contente e mandou tirar Daniel da cova. Quando o retiraram, viram que ele não tinha nenhuma arranhadura, porque tinha posto sua confiança em seu Deus. Em seguida o rei mandou vir os que tinham caluniado Daniel e os fez lançar na cova dos leões, junto com seus filhos e mulheres; eles ainda não tinham atingido o fundo da cova, quando os leões caíram sobre eles, triturando-lhes todos os ossos. E Daniel viveu na prosperidade nos reinados de Dario e Ciro, o persa (DANIEL 6:2-29).
O grande rei de Israel, Salomão, que buscava sabedoria através da ajuda de Deus, recebeu uma importante mensagem através dos sonhos: “Em Gabaon o Senhor apareceu a Salomão em sonho durante a noite e Deus lhe disse: Pede o que te devo dar”(1 REIS 3:5). Muitas vezes podemos ter desejos, dúvidas e incertezas esclarecidas através dos sonhos. Por outro lado o sonho pode servir para mostrar a culpa que carregamos no inconsciente, como aconteceu com o sonho da mulher de Pilatos, que anteviu o remorso que viria com a traição de Judas a Jesus: “Enquanto Pilatos estava sentado no tribunal, sua mulher mandou dizer-lhe: Não te comprometas com este justo, pois sofri muito hoje em sonhos por causa dele” (MATEUS 27:19).
Os sonhos julgados como revelações divinas, estavam sujeitos a provas que determinassem o seu caráter. Os sonhos imorais eram tidos como falsos e seus autores eram condenados à morte (DEUTERONÔMIO 13:1-5). O nascimento de Jesus Cristo é anunciado a José por um anjo que lhe aparece em um sonho, quando José decidiu abandonar Maria por não querer difamá-la, pois, conforme o costume judaico antigo, toda mulher adúltera ou que engravidasse antes de casar devia ser apedrejada até a morte: “A origem de Jesus Cristo, porém, foi assim: Maria, sua mãe, estava prometida em casamento a José. Mas antes de morarem juntos, ficou grávida do Espírito Santo. José, seu marido, sendo homem justo e não querendo denunciá-la, resolveu abandoná-la em segredo. Mas enquanto assim pensava, eis que um anjo do Senhor lhe apareceu em sonho e disse: José filho de Davi não tenhas medo de receber Maria, tua esposa, pois o que nela foi gerado vem do Espírito Santo” (MATEUS 1:19-25).
Quando Jesus nasceu, três magos do oriente vieram para adorá-lo. Naquela época os magos eram uma classe importante e poderosa. Os magos usavam túnicas sacerdotais brancas e um chapéu alto de feltro, com abas para cobrir os lados do rosto. E atuavam como mediadores entre os homens e Deus, intervindo em todos os sacrifícios. Interpretavam os sonhos e possuíam o dom da profecia, através de seus próprios sonhos. Com o tempo os magos passaram a ser considerados feiticeiros. Mas antes dos magos existirem, a visão onírica também era uma forma de comunicação com os profetas, onde os sonhos uniam o cérebro, a mente e a alma.
Durante o sono ocorre uma abolição da consciência e uma redução da resposta ao meio ambiente, de forma rítmica e reversível, acompanhada da mudança em muitas funções do organismo. Quando as oscilações e mudanças fisiológicas rítmicas se aproximam do período de rotação da terra de 24 horas, denomina-se ritmo circadiano (do latim circa dia). Relógios biológicos ainda desconhecidos mas existentes em nosso cérebro determinam esta ritmicidade. A alternância sono-vigília parece depender de células nervosas que atuam de forma cíclica como verdadeiros relógios, assim como existe o dia e a noite, a vida e a morte. O sono humano é dividido em cinco estágios diferentes. O indivíduo evolui progressivamente de uma sonolência (estágio 1), para um sono leve (estágio 2) e depois para um sono profundo (estágios 3 e 4) em cerca de 70 a 90 minutos. Estes estágios fazem parte do chamado Sono Lento, Sincronizado ou Sono não-REM. A seguir ocorre o Sono Paradoxal, Dessincronizado ou Sono REM (do inglês Rapid Eye Movements), o quinto estágio, onde sonhamos. Trata-se de uma fase do sono onde ocorrem movimentos oculares rápidos dos olhos e os sonhos, além de um padrão eletroencefalográfico (EEG) característico. O EEG do sono REM é semelhante ao estado de vigília, embora o indivíduo esteja dormindo, sonhando e com sua atividade muscular de repouso suprimida. O sono REM dura em torno de 20 minutos. A duração total desde o início do sono até o estágio REM é em torno de 90 minutos, sendo denominado ciclo ultradiano e repete-se sucessivamente várias vezes durante a noite, com quatro a seis ciclos.
Os sonhos ocorrem regularmente nas fases REM do sono. Esta fase aumenta em sua duração ao mesmo tempo em que os estágios do Sono Lento vão desaparecendo, até que o indivíduo acorde pela manhã. Geralmente ele se lembra do conteúdo dos sonhos ocorridos nas últimas fases de sono REM, embora tenha tido outros tipos de sonhos no início da noite. A fase REM do sono caracteriza-se por uma intensa atividade cerebral, com grande aumento do metabolismo neuronal. Trata-se de uma fase de funcionamento do sistema nervoso central que se desenvolveu posteriormente na linha evolutiva que deu origem aos mamíferos marsupiais e placentários. Mamíferos inferiores possuem apenas a fase de Sono Lento. As diversas fases do sono possuem uma grande importância para o crescimento e desenvolvimento do corpo, do cérebro humano e talvez do aprimoramento da alma humana. Durante os estágios 3 e 4 do Sono Profundo, ocorre uma grande liberação do Hormônio de Crescimento (GH) e de outros hormônios e aminoácidos importantes para o organismo. Por isto, acredita-se que os estágios 3 e 4 do Sono Profundo estejam associados ao crescimento e reparo teciduais, e na pessoa idosa ocorre uma diminuição deste estágio. O sono REM, por outro lado, relaciona-se aos processos sintéticos cerebrais. Logo, os estágios 3 e 4 do sono parecem ser importantes para a recuperação física, enquanto que o sono REM está envolvido na recuperação psicológica. Para a ciência os sonhos significam uma estratégia de sobrevivência do cérebro e do próprio indivíduo. O registro eletroencefalográfico do Sono REM e do estado de alerta na vigília em animais é muito semelhante.
O estudo dos sonhos ocupa um lugar especial na psicanálise. A obra Interpretação dos Sonhos de Sigmund Freud escrita em 1900 é considerada tão importante como foi a Origem das Espécies de Charles Darwin. Para o próprio Freud esta foi a mais valiosa descoberta que tivera a felicidade de fazer. O sonho é justamente o fenômeno da vida psíquica normal em que os processos inconscientes da mente, incluindo o aprendizado, são revelados de forma bastante clara e acessível ao estudo. A interpretação dos sonhos desvenda os conteúdos mentais reprimidos ou excluídos da consciência pela atividade de defesa do Ego. A parte do Id cujo acesso a consciência foi impedido é exatamente a que se encontra envolvida na origem das neuroses. Por isto, o interesse dos psicanalistas pelos sonhos deve-se ao fato de que, sendo fenômenos comuns e normais, servem para identificar e entender os processos atuantes na formação dos sintomas neuróticos. Além da compreensão dos processos e conteúdos mentais inconscientes em geral, os sonhos revelam o que foi reprimido ou excluído da consciência. Quando Freud pesquisou e publicou seu livro sobre os sonhos em 1900, a fisiologia do sono era totalmente desconhecida. Apenas mais tarde é que foi descoberto que o sonho é uma parte biológica fundamental do ciclo do sono, embora ainda seja válido o conceito freudiano de que os sonhos representam os desejos de nosso inconsciente, servindo de base para a psicanálise. Os sonhos, na evolução animal, passaram a representar uma série de associações e recordações (memória) formadas no cérebro em resposta a estímulos de centros nervosos mais inferiores. Talvez informações obtidas pelo mamífero em seu habitat, em estado de alerta máximo de luta e sobrevivência, sejam transmitidas durante o sono para o córtex cerebral, sendo reprocessados na forma de memória e aprendizado durante o sono REM. Durante a evolução, os animais adquiriram informações que envolviam locomoção e os movimentos oculares para exploração ambiental.
Com o sono REM, a locomoção foi suprimida (embora possa existir o sonambulismo), mas não os movimentos oculares. O processamento das informações mais importantes para a sobrevivência de cada espécie - como a localização de comida, água ou inimigos predadores - passou a ser uma tarefa importante do cérebro durante o dia, que as reprocessava durante a noite para o córtex, criando a memória, para uma estratégia de sobrevida.
Os sonhos refletem o mecanismo de processamento da memória herdado de espécies inferiores, dentro da teoria evolutiva. E estas informações passam a constituir a base do inconsciente. Como os animais não possuem linguagem, as informações processadas durante o sono REM são basicamente sensoriais, principalmente visuais. Por isto os sonhos humanos constituem-se principalmente de imagens. A consciência surgiu mais tardiamente no processo evolutivo dos seres humanos e o sonho passou a exercer um papel mais amplo, complexo, incorporando imagens, temores, desejos sexuais, ambições, ciúme, amor e tristeza, todos baseados em dois processos biológicos básicos: a preservação do individuo pela nutrição e de sua espécie, pela reprodução. No ser humano, o sonho passou a representar um importante meio através do qual o indivíduo se adapta no complicado mundo em que vive, com suas ansiedades, depressões, desejos, temores e frustrações. Crianças dormem mais que o adulto, sendo que um recém-nascido gasta a quase totalidade das 8 a 16 horas de seu sono diário na fase REM. Apenas com o crescimento é que começam a surgir os outros estágios (3 e 4) para o crescimento orgânico. Talvez o sono REM dominante esteja ajudando o desenvolvimento e crescimento do cérebro e processando as informações do mundo exterior, criando a memória, permitindo-o então conhecer seus pais e seu mundo exterior. E talvez seja também o começo da comunicação com Deus e o aprimoramento da alma. Ocorre o desenvolvimento do inconsciente, de sua personalidade e de sua estrutura psicológica, onde o sono e os sonhos passarão a ocupar um papel importante pelo resto da vida.
Um indivíduo não sobrevive sem o sono e sua vida é bastante prejudicada por distúrbios do sono. Mais de 25% da população adulta do mundo civilizado possui distúrbios do sono, como hiperssonia (51%), insônia (31%), parassonia (15%) e modelo desorganizado e variado de sono (3%). Quase 1/3 dos adultos apresenta insônia durante a vida, sendo que a metade destes apresenta problemas que exigem cuidados médicos. A insônia pode ser transitória e de curta duração, ocorrendo por alguns dias devido principalmente situações estressantes agudas como perda ou crise familiar, pessoal ou problemas financeiros ou quando o ritmo circadiano é prejudicado por viagens aéreas intercontinentais. A insônia de longa duração, que persiste por meses ou anos, decorre mais comumente de problemas psíquicos, como ansiedade crônica ou depressão, abuso de álcool ou drogas ou distúrbios específicos como apnéia do sono ou mioclonias noturnas (contrações abruptas, repetitivas e rítmicas de flexão dos membros inferiores que provocam despertar) e a síndrome das pernas inquietas (sensação desconfortável dos membros inferiores tipo queimação). Os distúrbios do ciclo sono-vigília tendem a aumentar nos centros industrializados, particularmente nos trabalhadores de turnos variáveis, que se submetem a mudanças periódicas e bruscas do ciclo normal do sono. Devido a lentidão na adaptação do relógio biológico as mudanças, ocorrem distúrbios importantes no sistema nervoso central com cansaço e sonolência excessivos. Há também um maior risco de úlcera péptica, gastrite, hipertensão arterial e acidentes de trabalho.
A sonolência diurna ou hiperssonia afeta de 1 a 4 % da população e as principais causas são a narcolepsia, a síndrome da apnéia do sono, a insuficiência de sono noturno e a hiperssonia idiopática. A síndrome narcoléptica é caracterizada por 4 componentes: crises de sono, cataplexia, alucinações e paralisia do sono, os quais podem ocorrer isolada ou conjuntamente, sendo os ataques diurnos de sono a principal queixa. O problema começa na adolescência ou vida adulta e parece ser um problema genético, havendo uma anormalidade no metabolismo das aminas cerebrais. O quadro de sonolência excessiva se inicia em torno dos 20-30 anos de idade e, após um despertar com boa disposição e alerta, em 2-3 horas o indivíduo precisa cochilar, quase que de forma irresistível, havendo prejuízo no trabalho, escola ou mesmo acidentes de tráfego. É comum o rótulo de muito cansaço, preguiça ou excesso de trabalho.
Na cataplexia ocorre perda do tônus muscular de forma repetitiva, parcial ou generalizada, durando segundos ou minutos, sem alterações da consciência e sem movimentos anormais. Na paralisia do sono há uma impossibilidade de se mover logo ao despertar (segundos), quer após cochilos ou após o despertar do sono noturno. As alucinações são descritas como sonhos vividos, quase reais, que surgem logo ao adormecer. A apnéia do sono é uma anomalia potencialmente letal onde ocorre uma parada da respiração por 10 segundos ou mais, podendo o episódio ocorrer em torno de 100-200 vezes durante o sono noturno. A apnéia pode ser ocorrer devido a um problema obstrutivo da vias aéreas superiores, uma anomalia central ou formas mistas. Ocorre particularmente em pessoas obesas e com doença pulmonar obstrutiva crônica, sendo comum a queixa de roncos e agitação durante o sono (episódios de apnéia seguidos de breves e despercebidos despertares). É um problema comum em homens adultos, que se queixam de sonolência excessiva durante o dia.
O sonambulismo caracteriza-se por um comportamento automático e perseverante nas primeiras horas do sono (sentar na cama, deambular), mais comumente com movimentos grosseiros e despropositados, ficando os olhos abertos, fixos, face inexpressiva. Há pouca resposta aos estímulos externos e dificuldade em despertar o indivíduo, o qual pode reconhecer o ambiente, evitar móveis ou esbarrar em alguns e perder o equilíbrio. O quadro dura pouco (1 minuto) e ocorre em episódio isolado à noite, ocorrendo regresso ao leito ou adormecimento onde estiver o individuo (sofá, chão). O indivíduo não se lembra do episódio no dia seguinte e os familiares são importantes para fornecerem detalhes sobre o quadro. O sonambulismo se inicia na idade pré-escolar, em ambos os sexos e pode persistir até os 10 anos de idade, ocorrendo em 5 a 10 % das crianças, desaparecendo espontaneamente na segunda década da vida, estando associado a uma maior ocorrência de terror noturno. O terror noturno surge nos primeiros estágios do sono de forma súbita, com gritos, choros e temor, associado a manifestações autonômicas (midríase, sudorese, piloereção, taquicardia, taquipnéia). Geralmente de curta duração (< 30 segundos), podendo entretanto ser prolongado (10-20 minutos), o quadro se associa a gestos incoordenados, automáticos e com amnésia (perda da memória) ao despertar. O episódio geralmente é isolado, se inicia em pré-escolares, de ambos os sexos, persistindo por alguns meses ou durando mesmo toda a infância, acometendo cerca de 4 % da população infantil, desaparecendo na puberdade. Há história familiar devido a um padrão hereditário do problema, desencadeado por fatores ambientais (fadiga, privação do sono, estresse).
Na Antiguidade, tanto entre os egípcios, gregos e hebreus, a insônia era algo comum e causada por uma grande variedade de problemas, como preocupações com a política, com enfermidades, com as riquezas ou com a velhice. No Egito Antigo o sonho tinha um valor premonitório, criado por Deus para indicar o caminho aos homens, quando estes não podiam ver o futuro. Na mesma época em que os antigos hebreus escreviam o Antigo Testamento na Palestina, começava a se formar não muito distante dali uma das mais majestosas civilizações da humanidade. Em 1.200 a.C. um povo com mistura das raças alpina e nórdica cruzou-se com os nativos do Mediterrâneo e formou várias tribos dominando as ilhas do mar Egeu. Este povo desenvolveu cantos populares, baladas e epopéias que foram mais tarde reunidos numa grande epopéia e passados a forma escrita por um médico cirurgião, Homero, em torno de 900 a.C.,- a Ilíada e a Odisséia. Estas continham a versão dos gregos sobre a origem do mundo, além de centenas de termos anatômicos, fraturas e ferimentos descritos pelo autor médico. A partir do Caos, uma divindade, foi gerada a Noite e Erebo, seu irmão. Desposando seu irmão, a Noite teve o Éter e o Dia, e sozinha, sem unir-se a outras divindades, procriou o Destino, a Morte (Tanatos), o Sono (Hipnos), a legião dos sonhos, e tudo mais que haveria de doloroso na vida. O Sono, pai dos Sonhos e irmão da Morte, tinha a sua agradável morada na ilha de Lemnos, conforme Homero. Esse deus misteriosamente penetrava no organismo humano, fazendo-o esquecer as mágoas, as fadigas, recuperando as forças e repousando a mente. Sob a figura de uma criança, ao fundo de uma gruta silenciosa e impenetrável à luz do dia, o deus Sono segurava com as mãos um dente e uma cornucópia; os Sonhos, seus filhos, dormiam dispersos, aqui e acolá, sobre papoulas em redor do seu leito. Quando um homem, cansado dos trabalhos que os deuses impõem, precisasse de repouso, Morfeu, filho do Sono e da Noite, aparece, voando nas asas de uma borboleta, tendo na mão uma papoula, e o faz dormir, tocando-lhe de leve na fronte com a haste desta planta. A papoula ou o ópio é uma planta de onde é obtido um poderoso medicamento para dormir, a morfina.
Asclépio, o deus grego da medicina, teve templos a santuários construídos em sua homenagem. Estes templos eram denominados Asclepeions e neles sacerdotes médicos recebiam pacientes, os quais eram induzidos a um sono profundo, onde recebiam a visita de Asclépio, que os curava. Após o tratamento sonoterápico instituído pelos gregos, a indução do sono e o papel dos sonhos passaram a ocupar um importante papel na história da humanidade. Apenas quase 3.000 anos após é que Freud iria desvendar o mapa da mente humana, desenvolvendo a técnica psicanalítica, e através da interpretação dos sonhos, descobrir a via de acesso ao inconsciente da vida mental. A realidade é um detalhe, mas para quem sonha, ela é um desafio.
Os sonhos podem ser classificados como:
Na história da arte a escola que mais se interessou em retratar os estados oníricos foi o Surrealismo, sob influência das idéias de Freud e de Kardec. Preocupados com a transcendência da realidade do consciente tentavam desenhar a visão do subconsciente, com uma pintura deformada, justaposta, extraordinária e carregada de simbolismos. Os temas eram exóticos, eróticos, líricos e conjeturais acerca do misterioso, onde o fantástico e o comum se misturavam e eram transportados por uma visão interior para além de suas vidas. A totalidade do mundo interior constituía a realidade, talvez mais real que o mundo aparente. Com a intenção de capturar os movimentos efêmeros com figuras por vezes díspares, pintavam o absurdo da confusão de imagens somente possível de ser concebida através de sonhos ou pesadelos. Salvador Dali criou o método chamado crítico-paranóico onde simulava a loucura para obter uma imagem do subconsciente e pintá-la. Muitos artistas faziam uso de alucinógenos para atingir estados oníricos os quais eram retratados, após a estimulação voluntária do sistema límbico que gerava imagens aberrantes no cérebro. Também estudavam desenhos de doentes mentais na tentativa de conhecer mais o funcionamento e a expressão criativa da mente dita anormal. A escrita automática e a psicografia foram introduzidas na literatura da época, como uma experiência onde a inspiração e a liberdade do uso das palavras dava asas aos mais puros sentimentos do poeta, originando uma literatura autêntica, semelhante aos estados de transe do sonho, onde há uma avalanche de símbolos, temporariamente sem sentido. O território enevoado entre o acordar em consciência e o território do sono é um tema fascinou sobremaneira os intelectuais daquele período. A confusão ao despertar comprova a experiência universal e poderosa dos sonhos e o questionamento sobre o real, a matéria dos sonhos, os sonhos propriamente ditos e suas fronteiras.
A pergunta o que são, de onde vem e o que significam os sonhos ainda não pode ser completamente respondida. Enquanto que para os povos antigos, como os egípcios, eram mensagens enviadas dos deuses, para a psicanálise, os sonhos são criados pelo próprio cérebro humano numa tentativa de sentido e elaboração dos atos e desejos. Os paranormais como os antigos acreditam que os sonhos tenham um elemento psíquico revelador do destino. Sejam quais forem as crenças, as pessoas sempre buscam significados variados para decifrar seus sonhos. Eles adentram a realidade e podem se confundir com os sonhos. Por isto, não podemos aceitar apenas uma teoria para explicar os sonhos, mas devemos englobar muitas das especulações científicas, místicas, filosóficas e religiosas para pelo menos tentarmos racionalizar e dar sentido aos sonhos.